| . |
|
|
![]() |
| edição 74, janeiro de 2001 |
|
CAPA
Maria Angélica Ferrasoli A sociedade argentina deu um basta à ineficiência de seu governo a uma semana do Natal. A reação dos platinos surpreendeu seus vizinhos brasileiros, pouco afeitos a colocar em prática a indignação acumulada. Causou apreensão em alguns economistas nacionais e inveja na maioria da população, a mesma velha inveja que os argentinos sempre despertaram por sua condição européia de vida, ainda que geograficamente distante do Velho Mundo. O superministro Domingo Cavallo caiu como em trilha de dominó, levando todo o ministério e o presidente Fernando de La Rúa – eleito com voto oposicionista e traindo uma população que almejara ter encerrado nas urnas a era Menem-Cavallo. Mais de duas dúzias de pessoas foram mortas durante saques e manifestações em várias províncias, e isso foi só o começo. Embora tenha decretado estado de sítio, quem acabou sitiado foi o governo. O 20 de dezembro será marcado como dia em que a população incendiou, literalmente, o ministério da Economia, vizinho à Casa Rosada, a sede do governo. “Não deixa de ser interessante, por doloroso que seja, ver que os protestos tiveram manifestações diferentes. Os que têm o estomago vazio saquearam supermercados, onde se podia conseguir comida, enquanto os setores médios se manifestaram em todo o país com protestos irados em espaços públicos”, relatou à RdB em dezembro o jornalista, historiador e funcionário do Banco de La Ciudad José Miguel Barcos. O que pode acontecer ao país e seu povo agora é uma incógnita, mas, a julgar pelo turbilhão de acontecimentos desencadeados até a virada do ano, a omissão vai continuar a passar longe dos platinos. Em doze dias, foram detonados nada menos que quatro presidentes, até se chegar a Eduardo Duhalde, e estabilidade é palavra ainda claudicante. Com megapanelaços e outras grandes manifestações, moratória decretada e na véspera de um pacote econômico (que deveria ser apresentado ao Congresso no último 4 de janeiro, desvalorizando o peso), os argentinos continuavam a protestar. Após a escolha de Duhalde para presidir o país até 2003, milhares foram às ruas por diretas-já. Optar por um novo comandante (bata na madeira, é modo de dizer),
respaldá-lo com a legitimidade do voto, também não será tarefa fácil. A
crise argentina, que se arrasta há décadas e se consolidou ao longo do
governo Menem, é ainda mais dura que aquela que os brasileiros se
acostumaram a enfrentar, e não só pela lembrança de gloriosos períodos
econômicos já vividos. Para os argentinos, não resta hoje sequer o consolo
da via oposicionista, praticamente dominada por resquícios do velho
peronismo. “A ditadura se encarregou de eliminar, com seqüestros, tortura
e morte, toda a oposição política para os futuros trinta anos”, aponta o
jornalista do diário argentino Hoy, Miguel Graziano. Tango atravessado. Na verdade, embora o processo que resultou nos dias de fúria de dezembro não tenha sido tão rápido quanto a principal notícia de 2001 – os atentados às torres gêmeas – o mundo já acompanhava há vários meses o declínio da economia argentina e seus estragos. O país atravessou no tango e conseguiu entrar na reta final de 2001 da pior forma possível: com o descrédito e ódio quase total de uma população que viu despencar a condição de vida que já fez de sua terra uma rara espécie de Europa deslocada. Até pouco antes da reviravolta, o que valia entre os platinos era o velho ditado tão bem empregado por aqui há alguns anos, que a melhor saída seria o aeroporto. “O primeiro argentino com quem conversei, um mendigo, disse que era filho de franceses, tinha trabalhado como padeiro durante 21 anos e há dois não conseguia emprego. Seu sonho era ir para a Europa”, conta o correspondente da Folha de S.Paulo em Buenos Aires, Fabrício Vieira. O jornalista presencia desde outubro último o clima crescente de tensão e a explosão dos argentinos nas ruas. O que em princípio eram grandes manifestações organizadas por centrais sindicais contra a política econômica, acabou se transformando em protestos espontâneos às vésperas do Natal, nas mesmas praças onde os ‘arbolitos’ (arvorezinhas, nome dado aos cambistas) faziam mais sucesso que Papai Noel, embora chegassem a cobrar até 1,8 peso por dólar. A estagnação econômica que destruiu as oportunidades para os argentinos mais jovens atingiu igualmente a geração de seus avós, a mesma que viveu em um país cujos índices de desenvolvimento humano (IDH) e analfabetismo sempre foram exemplares se comparados ao padrão sul-americano, inclusive o brasileiro. Uma das cenas mais tocantes da crise foi o atraso no pagamento dos aposentados. A Argentina é um país que conserva em sua cultura o respeito ao cidadão idoso, e atingi-lo no bolso e na falta de assistência médica foi, talvez, das mais expressivas manifestações de que se vive hoje ali uma típica realidade terceiro-mundista. A ela somam-se o crescimento dos camelôs nas ruas, dos pedintes no metrô e dos ‘cuidacoches’ nas áreas de estacionamento. Na capital, o número de favelados superou os 100 mil no ano passado, o dobro de há dez anos. Os dados parecem incompreensíveis para um país que, antes da metade do século 20 – em 1947 –, tinha 13% de sua população acima de 15 anos analfabeta, mesmo patamar que o Brasil “comemora” hoje, quando a taxa dos argentinos está em 3%. O metrô portenho foi o primeiro meio de transporte subterrâneo da América Latina (em 1913). A elite brasileira de então, pouco instruída, espiava com olhos cobiçosos o glamour da capital argentina, com rica vida cultural e hábitos sofisticados. Até a primeira década do século passado a Argentina estava entre os sete países mais ricos do mundo. Menos de cem anos, uma ditadura militar, uma guerra, um Menem e um Cavallo depois, os prejuízos para a classe média e os trabalhadores são incalculáveis. Segundo pesquisa realizada pela consultoria Equis em 2001, há vinte
anos 60% dos argentinos pertenciam à classe média, contra os 40% apurados
no ano passado. Já os trabalhadores perderam praticamente todas as
garantias trabalhistas criadas durante os anos de Juan Perón no poder –
algo como se a CLT brasileira simplesmente deixasse de
existir. Flexibilização arrependida. A reforma laboral foi iniciada no governo Menem e teve seu projeto final aprovado em abril último, com De la Rúa. “Com as leis de flexibilização dos direitos trabalhistas a maioria dos assalariados sofre hoje mudanças constantes nas condições de trabalho, pois cada vez se exige mais em troca de menos”, aponta Nicolás Funaro, secretário adjunto da Câmara Argentina de Firmas Consultoras de Engenharia. Segundo Funaro, o fim da segurança no emprego, as constantes mudanças na economia e a expectativa nada alentadora de que “não há políticos em quem se possa confiar” têm feito com que a única moeda corrente na Argentina seja o estresse. A idéia do estresse como moeda talvez tenha sido a mais precisa no final de ano argentino. Poucos dias antes do início dos grandes protestos, a população enfrentava longas filas para poder sacar o limite permitido, inclusive durante a madrugada. “Era comum se ver à 1h da madrugada quinze ou vinte pessoas indignadas, fazendo fila em algum caixa automático para retirar os 250 pesos semanais. Banco em que não havia fila era sinônimo de banco previamente saqueado, e ‘legalmente’ saqueado (pelo governo)”, destaca o jornalista Miguel Graziano. Ele descreve que um dos diálogos mais ouvido é retrato fiel do desencanto: “— Já estou cansado de trabalhar... — Você tem é que estar contente por ter um trabalho... — Mas não dá mais... — Pelo menos não tem um salário? — Sim, mas pagam pelo câmbio negro e em bônus. E não recolhem para a previdência, nem para o seguro saúde, nem ao sindicato, que tampouco nos defende. — Sabe quanta gente daria qualquer coisa para estar em seu lugar?” Na avaliação do jornalista, redator do diário Hoy, o país chegou à atual situação porque “o capitalismo argentino está em crise, o capitalismo e seus alquimistas, os economistas que ali conviveram desde a última ditadura militar, guiados como cegos pelo FMI”. A lembrança da ditadura é oportuna para chegar ao ponto de partida da atual crise. Entre meados dos anos 70 e 80, sob domínio dos militares, o país viu sucateadas suas empresas públicas, favorecendo o processo de privatização que seria detonado a partir dos 90, com o advento do neoliberalismo radical de Carlos Menem e Domingo Cavallo. A agricultura e a pecuária também não se modernizaram. “A ditadura militar endividou econômica e moralmente o povo argentino”, destaca o consultor Nicolás Funaro. À beira do caos. Em 1991 a Argentina conseguiu vencer a hiperinflação. O preço da estabilidade econômica mal resolvida, cobrado aos poucos da estrutura social, revelou-se impagável nos últimos três anos. O PIB (Produto Interno Bruto), que era de 298 bilhões de dólares em 1998, caiu 3,2% em 1999, 0,5% em 2000 e caía mais 0,5% no segundo trimestre de 2001. Os juros explodiram e chegaram à casa dos 54,30% ao ano (taxa básica). Houve fuga de investimentos no país e até briga com o Brasil que, por desvalorizar o real em janeiro de 1999, tornou seus produtos mais competitivos que os dos vizinhos. Mas não demorou ao cidadão argentino perceber que o problema era bem mais complexo, e o inimigo não morava exatamente ao lado, mas ali dentro. Um inimigo que, em uma década, derrubou o valor real do piso salarial industrial em nada menos que 28%, aumentou a taxa de desemprego de 7,1% (outubro/89) para 18,3% (outubro/01) e conseguiu ampliar o abismo social com a má distribuição de riqueza. Em 1989, os 10% mais ricos eram 23 vezes mais ricos que os 10% mais pobres. Atualmente, essa mesma elite é 29 vezes mais rica. Na faixa de rendimentos, esses 10% mais ricos ganhavam 14,9% vezes mais que os 10% mais pobres em 1991. Sete anos depois, passaram a ganhar 25,2 vezes mais. “Acredito que o fracasso do modelo argentino não tenha relação com o fracasso do capitalismo ou da liberdade econômica em nosso país, mas esteja vinculado ao excessivo endividamento público improdutivo associado à falta de competitividade do setor privado”, afirma o analista da Delphos Investment, Leonardo Chialva. Posteriormente, à inconsistência econômica juntou-se a crise política, resultado da ausência de liderança do governo, e os parâmetros de pobreza elevaram-se a mais de 30% da população. “A Argentina vive uma situação muito complexa. A possibilidade de evitar um caos econômico, político e social é cada vez menor, à medida que passa o tempo e se perdem as oportunidades”, alertou, poucos dias antes do início dos protestos. O preço que os argentinos têm de pagar por isso com certeza já está demasiadamente alto. Até na cultura a recessão já deixou suas marcas – com a queda de público, uma grande sala de cinema, a Metro, reduziu o preço dos ingressos de 7 dólares para 4,50. Entre os trabalhadores, os bancários estavam talvez na pior situação, já que, além dos processos de privatização e flexibilização enfrentados, ainda tinham de trabalhar aos sábados para atender aos que corriam aos bancos para tentar sacar dinheiro. O resultado mais dolorido dessa decadência talvez esteja reservado ainda para as próximas gerações. “Uma coisa que me entristeceu foi ver crianças, como acontece muito em São Paulo, vendendo flores ou alguma quinquilharia, madrugada adentro, por entre as mesas dos bares. Uma cidadã argentina me disse que a cena não era comum há pouco tempo”, destaca o jornalista Fabrício Vieira. Com seus aposentados e suas crianças ao deus-dará, a Argentina se aproxima cada vez mais do cotidiano brasileiro, para evidente azar de todos. Como acontece sempre com os países latinos em crise – desastrosa
exceção feita ao Brasil nos últimos anos –, apenas uma coisa parece
florescer em solo platino: o futebol. O problema é que, para desfecho do
mau tango, até mesmo a Copa do Mundo os argentinos correm o risco de não
poder ver pela TV, já que a DirectTV, dona da licença de transmissão, tem
encontrado dificuldades para vender as imagens para as redes locais de
canais abertos. Colaborou Gerardo Lazzari Trilogia do terror Este artigo foi enviado por jornalista que vive em Buenos Aires
e trabalha como bancário. Escrito dias antes da queda do governo, descreve
o ambiente social e econômico que explodiria em 19 de
dezembro José Miguel Barcos, Diz a canção de Serrat: “De vez en cuando la vida nos gasta una broma / Y nos despertamos sin saber que pasa/ Chupando un palo sentados sobre una calabaza”. Assim a maioria dos argentinos despertou da década de Menem, especialmente a classe média. Não entende o que aconteceu. Aliás, já não entendia desde 1976. O golpe militar foi o começo. O terrorismo de Estado, impulsionado por Washington nos anos 70, permitiu o desmantelamento da oposição popular, nacionalista e progressista. O resultado dessa empreitada pode ser medido hoje. A participação dos assalariados na renda nacional caiu 50% em relação aos anos 70. A renda dos 25% mais ricos está hoje, inversamente proporcional, 50% maior. O país está refém do capital financeiro internacional liderado pelos EUA; seu parque industrial agoniza. A história do estrangulamento das esperanças de nosso povo está baseada numa trilogia do terror: o terror militar, que eliminou parte dos que queriam construir outro país e a resistência futura; o terror da hiperinflação nos anos 1980; e o terror do desemprego e do empobrecimento dos últimos anos. Essa combinação histórica configurou o atual estado de resignação de milhões de argentinos, que agora movem-se diante do assombro. Os setores médios que se sentiam no Primeiro Mundo agora constatam que furtaram-lhes os sonhos de um futuro confortável e seguro, para si e seus filhos. A indústria nacional depende da valorização da moeda americana para competir com o mercado exportador. Os detentores de capital estrangeiro, como os que se beneficiaram das privatizações, preferem dólar barato e juros altos, o que favorece a remessa de lucros para suas matrizes. Como não se encontra a fórmula mágica que convenha a todos os interesses o povo seguirá pagando a conta. Inexistem forças capazes de organizar a desesperança popular. O argentino médio não tem a menor idéia do que fazer para resgatar sua qualidade de vida. Espera, literalmente, que “apareça alguém honrado” (frase muito repetida aqui) para tirar o país do buraco, sem aperceber-se da necessidade de envolver-se mais ativamente no processo de reconstrução do país. É este o relato de um jornalista que ganha a vida como bancário. Efetivamente, as jornadas são extenuantes, passam de doze horas, e trabalha-se nos fins de semana. Impõem-se reduções salariais e deterioram-se as condições de trabalho. “Ao menos temos trabalho”, é o choramingo conformista que acompanha a submissão da maioria dos trabalhadores argentinos. A taxa de desemprego constitui um formidável “disciplinador” das ações tanto no solo trabalhista quanto social. Findo o sonho do milagre argentino, não há mais nenhum espaço para
saídas individuais. O reencontro da esperança depende de se encontrarem
alternativas pela via organizada. E coletiva. José Miguel Barcos, jornalista e historiador, trabalha como bancário no Banco Ciudad de Buenos Aires |
| ||